O Covid-19 na Dinamarca, Especial para o JBO, por Amanda Maron
Copenhague, 3 de abril de 2020.
Hoje completamos 21 dias de lockdown e isolamento espontâneo. A primavera chegou depois de longos meses de inverno e escuridão, e dias de sol e temperaturas mais amenas que foram tão esperados começam a ser mais frequentes. Mesmo assim, a sociedade dinamarquesa mantém à risca as recomendações de mitigação para achatar a curva de contaminação do corona vírus.
O primeiro caso confirmado de Covid-19 na Dinamarca ocorreu em 27 de Fevereiro. Em menos de quinze dias, já havíamos chegado a 674 contaminados. Apesar disso, o país se mantém com números melhores do que seu vizinho, a Alemanha. Dados de hoje mostram 3.672 casos, dos quais 1.089 já estão curados, 523 internados, sendo que 153 estão na UTI, e 123 mortos. Vale lembrar que ainda estamos na subida da curva e especialistas esperam que alcancemos o topo por volta do fim do mês de Abril.
Mas por que há menos casos aqui? Se você perguntar a qualquer dinamarquês, a resposta será a mesma: devido à rápida ação da primeira-ministra Mette Frederiksen, uma mulher divorciada de 42 anos que é também mãe de duas crianças em idade escolar. Ela tem sido vista como a principal responsável pelo cenário relativamente positivo que se vê no país.
Imagem: Ministro da Saúde, Magnus Heunicke, e primeira-ministra Mette Frederiksen em coletiva de imprensa. O governo fala quase que diariamente para a população sobre a situação no país. Fonte: Reprodução
Ela recebeu o apoio da rainha Margarethe II, 80, através de um pronunciamento extraordinário, o primeiro feito pela realeza numa data não-especificada desde o fim da Segunda Guerra Mundial. No discurso, que pode ser acessado no link https://youtu.be/TZKVUQ-E-UI, ela pede a todos os cidadãos do país que fiquem em casa nesse momento e pensem uns nos outros.
A Dinamarca foi um dos primeiros países na Europa a declarar o lockdown, fechar as fronteiras e tomar medidas de segurança. Para evitar demissões em massa, o governo rapidamente aprovou pacotes econômicos para ajudar pequenas e grandes empresas, assim como profissionais autônomos. Grandes empresas terão 75% dos salários dos seus funcionários pagos caso não os demitam. Já pequenas empresas e autônomos têm acesso preferencial a empréstimos e podem adiar o pagamento de impostos.
Apenas serviços essenciais, como farmácias, supermercados, policiamento e manutenção continuam funcionando. Inicialmente, todos os eventos com mais de mil pessoas foram cancelados. O número rapidamente baixou para 100 e hoje o limite é de até 10 pessoas reunidas. Limite esse que os dinamarqueses respeitam sem pensar duas vezes, mas que são punidos por uma multa de 1.500 coroas dinamarquesas – o equivalente a aproximadamente 1.200 reais - quando não respeitado.
Imagem: Supermercados demarcaram separação nas filas de caixa para que os clientes fiquem a uma distância adequada. Fonte: Reprodução
De acordo com Daniel Simon, 36 anos, trabalhar de casa por tanto tempo tem apresentado desafios. “É excelente na primeira semana. Você não precisa acordar cedo pra enfrentar o deslocamento, não tem fila pro café... Reuniões que poderiam virar e-mail finalmente viram. Porém, ao chegar na terceira semana, você já sente falta das constantes interrupções, das pequenas reuniões na fila do café e das reuniões que poderiam ser e-mails. Enfim, falta de contato humano”. Daniel é gaúcho e mora na Dinamarca há quase 6 anos. Ele é Lead Designer numa empresa de tecnologia de comunicação.
Mas estar em quarentena não precisa ser necessariamente estar isolado. De fato, o governo dinamarquês defende passeios ao ar livre desde que a distância mínima seja mantida e que as pessoas lembrem de lavar as mãos e não tocar o rosto. A polícia envia mensagens de texto à população para lembrá-los das regras e desejar um ótimo fim de semana de sol. É comum ver pais levando seus filhos para brincar em parquinhos, pessoas caminhando nas florestas ou deitadas na grama do parque, cada um em seu próprio espaço, separados fisicamente do próximo.
No condomínio de Ticiana Fróes, 35, os vizinhos se reúnem todas as noites para cantar. Além disso, uma pessoa ajuda com atividades para as crianças, outro vizinho fez pães para distribuir e jogos de tabuleiro são trocados para passar o tempo. “A arquitetura do condomínio facilita a nossa interação social. Todas as noites, no mesmo horário, nos encontramos na varanda e cantamos juntos uma ou duas canções sugeridas pelos moradores no grupo do Facebook. Um vizinho toca no violão e a gente acompanha”, conta a baiana que está há quase uma década na Dinamarca onde trabalha como audiologista. “Tem sido o grande acontecimento do dia. Rimos, às vezes tomamos um vinho... todos juntos, mas separadamente (stå sammen – men hver for sig) como disse a primeira-ministra em um dos seus pronunciamentos. Estamos unidos por uma causa”, acrescenta.
Mais reuniões de vizinhos como as que têm acontecido no condomínio de Ticiana se espalham pela cidade. No bairro de Louise Borges-Hansen, 29, os apartamentos organizaram uma boate silenciosa nas varandas. A mineira, que mora sozinha, diz que o lockdown parece um longo final de semana. “Uma coisa é ficar em casa quando não está se sentindo sociável, outra é ser forçada a ficar em casa por - por enquanto - um mês. Por ser auxiliar pedagógica em uma creche eu não tenho como trabalhar de casa então, até receber materiais para leitura e estudo em casa, eu estava passando os dias fazendo quebra-cabeças, faxina e caminhadas em um parque”.
Na última segunda-feira, 30 de Março, Mette Frederiksen informou à população que caso os números continuem bons até o dia 13 de Abril, data de previsão para o fim da quarentena, ela pretende começar a reabrir o país gradualmente.
Caso isso aconteça, a Dinamarca será novamente uma das pioneiras, mas por enquanto trata-se apenas de uma promessa.
A autora Amanda Maron é graduada em Rádio e TV pela Universidade Estadual de Santa Cruz e reside em Copenhague, capital da Dinamarca.